sábado, 14 de abril de 2007

Krishnamurti e o Sexo


Perguntou-se a Krishnamurti se ele julgava condenável que as pessoas fortemente sexuadas cedessem a seus instintos. "Nada é condenável se resulta de algo que esteja realmente dentro de nós", foi sua resposta. "Atenda a seu instinto, se ele não foi instigado por estimulantes superficiais e o consome interiormente - e, assim, não haverá problema sexual em sua vida. Só se cria o problema quando alguma coisa dentro de nós, real, encontra oposição por parte de considerações intelectuais".

Mas certamente não são apenas considerações intelectuais que levam muitos a julgarem errada a satisfação de uma forte necessidade sexual, mesmo se ela é tão forte que não possa ser suprimida.

"A supressão nunca resolve um problema. Nem a autodisciplina o faz. Isto é apenas substituir um problema por outro".

Mas, como espera você que milhões de pessoas, escravas do sexo, resolvam o atrito entre suas necessidades e esse senso judicioso que tenta impedi-las de satisfazerem esses desejos? Na Inglaterra é muito menor o número de pessoas dominadas pelo sexo, mas vejamos esse país, a América do Norte; ou a maioria dos países da Europa; consideremos muitas das nações orientais - para elas suas necessidades sexuais são um grave problema.

Notei uma expressão de ligeira impaciência na fisionomia de Krishnamurti. "Para mim este problema não existe", disse ele; afinal, o sexo é uma expressão do amor, não é? Eu pessoalmente extraio tanta alegria do contacto da mão de uma pessoa de quem eu goste, quanto qualquer outro de suas relações sexuais."

E que diz das pessoas comuns que não alcançaram o seu grau de maturidade, ou outro qualquer nome que se lhe dê?

"Para começar, cumpre que todos considerem o sexo nas suas justas proporções. O que domina os homens, hoje em dia, não é tanto o sexo como necessidade vital interior, mas, sim, as imagens e os pensamentos relativos ao sexo. Toda a nossa vida moderna é propícia a eles. Olhemos ao redor de nós. Dificilmente abrimos um jornal, viajamos no "metrô", ou passamos por uma rua sem encontrar anúncios e cartazes que tentem nossos instintos sexuais para louvar um par de meias, uma nova pasta de dentes ou uma certa marca de cigarros.

Creio que jamais houve tantas moças seminuas figurando entre as páginas dos jornais e das revistas como actualmente. Em todas as lojas, cinemas e cafés, as ascensoristas, empregadas e vendedoras estão preparadas, enfeitadas como mulheres perdidas para tentarem nossos instintos sexuais. Elas mesmas não têm consciência disso, mas suas roupas curtas, pernas expostas, rostos pintados, penteados extravagantes, o constante atractivo físico que são obrigadas a exercer sobre o freguês, nada mais fazem senão estimular nossos instintos sexuais. Oh! É brutal, simplesmente brutal! O sexo foi rebaixado ao papel de servo de comerciante sem imaginação. Se alguém resolve editar uma nova revista, em vez de recorrer à sua imaginação para organizar uma capa interessante e atractiva, o que faz é apenas publicar a fotografia colorida de uma moça com os lábios semi-abertos, escondendo sugestivamente o seu peito e parecendo uma perfeita prostituta. Estamos sendo constantemente atacados, e já não sabemos se se trata de nossa própria necessidade sexual ou de vibração sexual produzida artificialmente pela vida ao redor de nós.

Este apelo degradante, enfático, a nosso instinto sexual é um dos mais detestáveis sinais de nossa civilização. Tire-se isto e a maior parte da chamada necessidade sexual desaparecerá".

"Não sou um moralista", acrescentou Krishnamurti depois de uma pausa, "Nada tenho contra o sexo, e sou contra a supressão do sexo, a hipocrisia sexual e mesmo o que se chama autodisciplina sexual, que nada mais é que uma forma específica de hipocrisia. Mas acho censurável que o sexo seja diminuído, introduzido em todas essas formas de vida às quais ele não pertence".

Não obstante, Krishnaji, seu mundo sem essa excessiva atracção sexual só seria encontrado no País da Utopia. Estamos tratando do mundo como realmente é, e como provavelmente ainda será no futuro, muito tempo depois que você e eu tenhamos desaparecido.

"É possível, mas isto não me interessa. Não sou um médico; não posso prescrever meros remédios; cogito única e simplesmente da verdade espiritual fundamental. Se você deseja remédios e métodos parciais, procure um psicólogo. Só posso repetir que se nos reajustarmos de maneira que permitamos que o amor se torne um sentimento onipresente no qual o sexo seja uma expressão de genuína afeição, todos os cruéis problemas do sexo deixarão de existir"' .


Extraído do livro de Rom Landau "God is my Adventure"


Nenhum comentário: