terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Paixão é Pura Química





O órgão sexual mais poderoso do corpo humano é o cérebro. É ali que nasce o desejo e surge a paixão. Também é de lá que vem a vontade de ficar junto ou de trair. Desse laboratório, sai a química que rege todas as emoções.


Por Ricardo Bonalume Neto

''Não saco nada de física/Literatura ou gramática/Só gosto de educação sexual/
E odeio química'

A música se chama 'Química', é de Renato Russo e é ótima, mas hoje não dá para imaginar algo tão contraditório. O motivo é simples: quase tudo o que se refere a sexo e amor poderia ser entendido pela química produzida entre duas ou mais pessoas. As reações químicas acontecem desde a primeira visão da pessoa amada, o tal amor à primeira vista, disparando substâncias que passam a agir no organismo sem cessar. A longo prazo, a presença ou não de certas substâncias ajuda a explicar a diferença entre um relacionamento duradouro e outro que terminou.

O fato é que o principal órgão sexual do ser humano é o cérebro - ele não comanda apenas as fantasias, mas também a cascata de reações químicas. E isso começa cedo: antes mesmo do nascimento, os hormônios entram em ação, organizando os circuitos cerebrais que vão moldar a futura vida sexual da pessoa.

A FÓRMULA DA ATRAÇÃO
No início, pode bastar um olhar, especialmente para os homens. Várias pesquisas mostram que, de fato, eles são atraídos primeiro pela anatomia feminina. E o que costuma atrair não muda muito na maior parte do planeta: os hormônios sexuais determinam que a atenção dos homens se volte especialmente para rostos simétricos, redondos e algo infantis, corpos cheios de curvas, com destaque para a cintura, bem definida. Já as mulheres vão além da aparência -outros elementos são rapidamente analisados de modo inconsciente: a voz grossa, a atenção dedicada a ela. Homens e mulheres, porém, recebem no sangue a mesma descarga de hormônios que desencadeia o processo de atração mútua.

A explicação tradicional para essas reações diferentes se baseia no que aconteceu durante a maior parte da história humana. Durante centenas de milhares de anos, bandos de homens e mulheres vagaram pelas savanas africanas, construíram lares em cavernas e viveram da caça de animais e da coleta de frutos. Foi só com o início da agricultura e da civilização, há cerca de 10 mil anos, que os fatores culturais passaram a interagir com uma sólida base biológica -e química.

A preferência masculina por quadris largos, por exemplo, também teria relação com esse passado: aos nossos ancestrais, quadris estreitos podem ter sinalizado dificuldades no parto, como a morte da mulher ou da criança. Com isso, o homem não teria sucesso em seu objetivo básico, o de se reproduzir e deixar descendentes.

AS RAZÕES DO ADULTÉRIO
A formação de pares é uma característica da sexualidade entre os seres humanos -o que não significa que não exista infidelidade, e muita. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos indicam que as escapadas podem acontecer de fato em 25% a 50% dos casais. Estudos de paternidade baseados em exames de sangue já apontavam, na década de 1940, 10% de filhos ilegítimos. E esse número hoje pode ser maior, graças à precisão dos testes de DNA. Tanto adultério leva a crer que deve existir um componente biológico nessa atitude, segundo Helen Fisher, da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos. De volta aos nossos ancestrais: a mulher que copulasse secretamente com outro homem poderia ganhar recursos extras para sobreviver e cuidar de seus filhos. Poderia, também, aproveitar ao máximo os dois tipos de homens -o que é parceiro e ajuda a cuidar da prole, e o tipo alto, forte e másculo, capaz de gerar filhos fortes. Com isso, elas teriam o melhor de dois mundos: descendentes com bons genes e filhos bem cuidados por ótimos maridos.

Talvez isso também explique por que homens casados seriam tão atraentes para mulheres solteiras: eles já teriam provado ser capazes de formar um par. No caso dos homens, o adultério se justifica pelo impulso de querer gerar descendentes a partir de diferentes mães, uma vez que, biologicamente, ele pode e tem o impulso de fecundar várias vezes por mês.


AS DROGAS DO AMOR
Os casamentos de Margareth Mead, outra antropóloga conhecida, ilustram as teorias de Fisher. Certa vez comentaram que ela tinha fracassado nesse assunto, já que havia se casado três vezes. Para ela, porém, isso não tinha nada a ver com fracasso. 'O primeiro casamento é para sexo. O segundo, para crianças. O terceiro, para companheirismo.'

Helen Fisher acredita que a atração do casal também passa por três fases, mediadas por diferentes neurotransmissores -as substâncias que agem no cérebro, mais exatamente na passagem dos sinais elétricos entre as células nervosas ou neurônios. Sexo, a busca de um parceiro para ter prazer, é a primeira motivação, e pode levar ao que ela chama de 'amor romântico'. Nessa fase, o casal fica literalmente viciado um no outro, e a culpa é do neurotransmissor dopamina, também vinculado à sensação de prazer ligada a drogas. E, assim como acontece com quem está sob a influência de uma droga, a pessoa pode ter picos de euforia e de desespero. Tradução: em um momento, o amor é lindo. Em outro, é tormento, e o motivo muitas vezes é banal, só porque ele (ou ela) não telefonou, por exemplo.

Passada essa etapa, a relação vai amadurecer. Forma-se, então, o vínculo emocional necessário para manter os pais unidos, cuidando da criança que provavelmente virá.

O terceiro momento, quando o casal consegue chegar até lá, é o do companheirismo. Mas isso, em geral, significa menos relações sexuais. Pesquisas feitas nos Estados Unidos com casais bem jovens indicam que eles fazem sexo de 11 a 12 vezes por mês. Mesmo aos 30 anos, a freqüência gira em torno de nove vezes, caindo para seis depois dos 40 anos e para apenas uma vez por semana depois dos 50.

MONOGAMIA EM SÉRIE
O desejo de deixar seus genes para a posteridade existe tanto nas mulheres como nos homens, mas há uma diferença importante. Em geral, elas têm apenas um óvulo por mês para ser fecundado. Ficam grávidas durante nove meses e depois devem cuidar de uma criança vulnerável por um bom tempo. Já o homem pode fecundar muitas parceiras simultaneamente, sem interrupções.

Essa é a explicação tradicional para a formação de pares: a mulher precisa de alguém que a ajude a cuidar da criança e o pai quer que seu filho sobreviva. Para manter o casal junto, a seleção natural desenvolveu uma maneira de tornar a relação mais divertida para os dois: o sexo. A maioria dos animais faz sexo apenas para procriar. Mas o ser humano pode fazer sexo, e faz, a qualquer momento -exceto nos momentos mais próximos ao parto.

Para uma das mais polêmicas pesquisadoras da área, a antropóloga Helen Fisher, os seres humanos estão quimicamente programados para o que ela chama de 'monogamia serial' -os casais se formam, se separam e voltam a se juntar em novos pares. Essas uniões duram, em média, quatro anos, coincidentemente o mesmo número de anos registrado nas estatísticas dos divórcios nos Estados Unidos.

Quatro anos, segundo Fisher, marcaria a época em que uma criança atinge idade suficiente para ser cuidada por outros membros do bando de caçadores pré-históricos. Até uma garotinha de 8 ou 9 anos teria -e tem, como é possível confirmar hoje em dia- capacidade para tomar conta de uma irmãzinha.

A POÇÃO DA FIDELIDADE
A verdade é que faz muito pouco tempo que a ciência começou a entender o sexo. Só na década de 1930 foi descoberto o principal hormônio masculino, a testosterona. 'Até os anos 1960, ninguém sabia como acontecia a lubrificação vaginal, e havia poucos estudos sobre a fisiologia da excitação sexual e do orgasmo', diz James Weinrich, pesquisador da Universidade da Califórnia. Só nos últimos 20 anos é que os cientistas começaram a entender melhor o que realmente acontece no cérebro.

Uma experiência feita na Universidade Emory, em Atlanta, sobre o papel da oxitocina e da vasopressina em animais revelou que espécies parecidas podem ter comportamentos bem diversos. O hormônio vasopressina, por exemplo, age em uma área do cérebro que regula o processo de formação do par, ativando o que poderia ser chamado de 'sistema de recompensa', já que dá uma sensação de prazer. As substâncias são liberadas no cérebro depois de uma relação sexual, e o prazer do ato é associado ao parceiro.

Assim, os roedores de uma espécie X, por exemplo, são maridos ideais: monogâmicos -o que acontece só com 3% dos mamíferos-, ainda ajudam a fêmea a cuidar dos filhotes. Mas outros roedores, primos bem próximos, não formam pares e machos e fêmeas não cuidam bem dos filhotes.

Quando o bichinho monogâmico forma o par, seu cérebro literalmente jorra oxitocina. Mas, se os cientistas bloqueiam a produção desse hormônio, a química entre o macho e a fêmea simplesmente não acontece, e eles não se tornam um par. Por outro lado, quando se aumenta a dose, o ratinho se apaixona mais rapidamente e mesmo os outros ratinhos, os primos sem-vergonha, passam a ser fiéis a uma única ratinha.

Ainda não se sabe se algo parecido acontece no cérebro de homens e mulheres, embora as duas substâncias -oxitocina e vasopressina- existam no corpo humano, com funções conhecidas diferentes (por exemplo, fazer a mulher produzir leite durante a amamentação). Mas alguns cientistas acreditam que a oxitocina também seria uma espécie de 'poção do carinho': a produção dessa substância aumentaria sempre que o casal está de mãos dadas, abraçadinho na cama, ou mesmo assistindo a um filme romântico.

BONS EFEITOS COLATERAIS
Na prática, desvendar a química do sexo não tem como objetivo criar maridos ou esposas fiéis. A idéia é ajudar a resolver distúrbios variados: nas drogas modernas, os hormônios são ingredientes poderosos e eficientes. Um estudo recente feito nos Estados Unidos revelou que quase metade das mulheres e um em cada três homens têm algum tipo de problema sexual: falta de desejo na mulher e falhas de ereção no homem estão entre as principais queixas. Isso não é diferente no Brasil. No 'Estudo da Vida Sexual do Brasileiro', realizado pela psiquiatra Carmita Abdo, de São Paulo, os números batem: 27 em cada 100 mulheres têm dificuldade para se excitar, 45% dos homens sofrem de disfunção erétil em algum grau, e em cada dez brasileiros -homens e mulheres- três não chegam ao clímax.

Claro que a química não explica tudo. Homens e mulheres podem achar parceiros que não seriam considerados tão atraentes pela maioria, mas que são o ideal para eles. De qualquer forma, não há como ignorar certos efeitos químicos notáveis, como o da 'sincronia da mentruação': a cientista Martha McClintock, da Universidade de Chicago, descobriu que mulheres que convivem no mesmo ambiente, o de trabalho, por exemplo, tendem a menstruar no mesmo período.

O próprio ato de menstruar também depende da composição química do corpo. Para começar a menstruar, uma adolescente precisa ter pelo menos 17% do seu peso na forma de gordura e 22% para manter ciclos regulares. Essa é uma boa notícia para mulheres que admiram a magreza da boneca Barbie: um cálculo feito por pesquisadores na Finlândia mostrou que uma Barbie de carne e osso teria tão pouca gordura que não seria capaz de menstruar. Sem contar que seus quadris estreitos não atrairiam o homem herdeiro dos gostos de seus antepassados das cavernas.

Nenhum comentário: