domingo, 26 de novembro de 2006

"O Homem Apaixonado" de Lílian Maial



Se você conheceu um homem apaixonado, verdadeiramente apaixonado,
você conheceu o que há de melhor nesse mundo.

É fácil e comum, nos dias de hoje, encontrar uma mulher apaixonada.
As mulheres parecem terem sido feitas para a paixão (ao menos é o que
nos dizem desde que nascemos). Mas homens, esses foram feitos para as
batalhas sangrentas do dia a dia, para as dificuldades financeiras, para a
luta pela sobrevivência, para o silêncio de sentimentos (assim pensa a
nossa sociedade).

Os homens foram tão massacrados de responsabilidades e estigmas de
carregar o mundo nas costas, que nem se deram conta de sua própria
necessidade de amor e paixão. Fingem tão bem não ligar, reduzem o
amor a conquistas, a disputas, a objetivos práticos a serem alcançados que,
assim que atingem tal objetivo, o objeto passa a não exercer o mesmo
fascínio.

Tudo bem, é por aí. Mas e quando Cupido decide flechar de verdade o
coração masculino? Como reage esse coração, tão pouco acostumado a
sofrer por amor, a manter alguém 24 horas por dia em seu pensamento?
Gente, é lindo! É tão lindo quanto ver uma criança dando seus
primeiros passos, ou vendo um passarinho dar seu primeiro vôo, ou como
namorados dando seu primeiro beijo.

Ele (o homem) é pego de surpresa e reage de forma surpreendente.

Torna-se vulnerável, emotivo, passa a prestar atenção em letras de
músicas, em flores, em poemas, em vitrines, em praças, em crianças.
Ele passa subitamente a gostar de lojas, de receitas, de moda e
perfumaria. Fica entendido em cremes e cheiros, em livros, em drinks.
Passa a ser expert em assuntos exóticos. Acorda e dorme cantarolando.
Isso tudo porque a amada tem seu mundo e é seu mundo.

O espelho passa a exercer atração. Geralmente muda o corte do cabelo,
a barba e o bigode (tira, se tem, deixa crescer, se não tem). Fica
vaidoso, sensível e bobinho. Adorável bobinho. Mas... esconde!
Ah, parece ser pecado se apaixonar!
Deve ser uma terrível gafe demonstrar sentimentos.
Aparentemente é condenável ser simplesmente humano.

Sabe aquela coisa do "lado feminino"? Balela. Não existe essa
dicotomia. Todos temos de tudo dentro de nós.
O poder, a beleza, o bem, o mal, o
masculino e o feminino, o yin e o yang.

Mas esse homem apaixonado passa a ser exigente, a ter carências e
vicissitudes. E se você souber manter essa chama acesa, souber lidar
com esse homem enfeitiçado, será uma mulher abençoada, porque ele é capaz
de tudo para ver você feliz.
Ah, esse homem não medirá esforços. Não haverá obstáculos capazes de
detê-lo na empreitada da sua felicidade. Ele acordará com a força de
um Hércules, a disposição de um atleta, a perseverança de um monge, e a
fragilidade de uma criança.

Acolha-o. Sinta-o. Mime-o. Ame-o.
Deixe-o sentir seu amor fluir.
Alimente-o de afagos, de agrados, de elogios.
Mostre a ele a correspondência de sentimentos, mas não o prenda.
Deixe-o livre para escolher você, escolher estar com você, preferir
você a qualquer coisa. Mas por vontade dele.

Creio que o erro de muitas mulheres é querer prender seu homem,
controlar seus passos, cercá-lo não de afeto, mas de desconfiança.
O homem apaixonado é seu. Está apaixonado, encantado, tem um mundo
novo e muitas das vezes não sabe lidar com ele.
Também fica inseguro, ciumento, quer agradar, quer inundá-la de
carinhos, mas quer manter sua habitual liberdade.

E em nome desse novo amor, desse sentimento que o fragiliza tanto,
talvez sufoque essa liberdade que sempre teve e que sempre foi-lhe ensinado
assim. Mas isso, com o tempo, certamente o deixará limitado e
cansado, levando a um desgaste no relacionamento.

Então, o que fazer?

Não há fórmulas. Não há receitas de bolo.
Há sim uma necessidade de entendimento, de espaço, de respeito mútuo.
Há que se lidar com a liberdade assim como se lida com a delicadeza
da paixão.
Há que se estabelecer limites. O outro é o outro, você é você.
Não se pode amar ao outro se não se ama a si próprio.
O outro não é seu espelho e nem seu ideal e objetivo.
Nada de se anular em função do amor.

Essa é a diferença entre a mulher apaixonada e o homem apaixonado.
Ele não ama menos, não sente menos, não sofre menos por amor.
Apenas ele sempre teve sua individualidade. A sociedade o permitiu
desde o início dos tempos, enquanto nós, mulheres, aos poucos vamos ganhando
terreno na igualdade de direitos, inclusive o direito de se amar, o
direito a seu espaço individual na relação a dois. "







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